Vida e finitude

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Estamos acostumados a lidar com a vida, mas muito pouco com o seu fim. Livros raramente nos ensinam a respeito do envelhecimento, da fragilidade ou da morte como se fosse irrelevante a experiência que as pessoas passam no fim de suas vidas.  Muitas famílias se surpreendem e, não raro, com o sofrimento causado por uma doença inesperada, inominada, intratável em um de seus entes queridos; e por não saberem lidar com a aproximação do fim da vida, cresce nelas a angústia por medo da morte, pois a morte é um assunto que ninguém gosta de falar – sejam médicos, familiares e sem dizer, o próprio doente.

Diante de uma enfermidade e ameaça de morte comprovadas, o ideal é que a família aja com compaixão e honestidade com o seu doente. E os médicos, que estudam sobre “os processos internos do corpo e os complexos mecanismos de suas patologias”, pensem mais do que isso e ajudem os familiares e o próprio paciente a enfrentar a realidade do declínio e da mortalidade. Neste sentido, podemos perceber o quão despreparados estamos todos para agir ou lidar com nossos doentes terminais ou com uma doença de difícil cura, que deixa os familiares deprimidos, enfraquecidos e sem um lampejo de esperança de que as coisas mudem.

E quando a família insiste em um tratamento que não tem nenhuma chance de dar ao enfermo o que ele quer – suas forças, capacidades, a saúde de volta? Não seria correr atrás de uma fantasia sob o risco do doente ter uma morte prolongada e sofrida demais? Será uma corrida para trás? Penso que, às vezes, paciente e médico correm atrás de uma ilusão, quando melhor seria discutir abertamente sobre a doença, a condição do doente e os limites da medicina. Importar-se mais em preparar a pessoa para a aproximação do fim de sua vida pode estar além das nossas forças e até das dos médicos, emocionalmente melhor preparados para isso. Porém seria o ideal. Deveríamos orientar, consolar e principalmente mostrar ao doente sua real situação ao invés de submetê-lo a novas formas de tortura física num leito de hospital – isso porque “a capacidade científica moderna insiste em alterar de forma profunda o curso da vida humana. Hoje, as pessoas vivem mais e melhor do que em qualquer outra época da história, porém os avanços científicos transformaram os processos do envelhecimento e da morte em experiências médicas”.

Fato é que estamos sabendo esticar a vida cada dia mais e, cada dia menos, familiarizados com sua finitude. Não muito tempo atrás, a maior parte das mortes ocorria em casa. Alguns morriam tão subitamente que mal conseguiam chegar a um hospital – fosse de infarto, derrame ou ferimento grave. Hoje não se vê mais um doente morrer em casa. “A experiência do envelhecimento avançado e da morte foi transferida para hospitais e casas de repouso” e vivemos mais e isso é bom! No entanto, precisamos pensar em nossa condição de mortais, que pessoas de nossas famílias morrem; jovens e idosos passam por doenças sérias, potencialmente letais e que a medicina pode ou não salvá-los.

Tenhamos em mente que a morte é normal e tão inevitável quanto o por do sol. Podemos encará-la como inimiga, mas é a ordem natural das coisas – somos criaturas que nascem, envelhecem e morrem, mas lidar com nossa finitude não corresponde à realidade.

Será que somos vítimas de nossa recusa em aceitar a imutabilidade do ciclo da vida?

2 comentários sobre “Vida e finitude

  1. Avatar de Maria Amintha Mendes Teixeira Maria Amintha Mendes Teixeira

    “Estamos acostumados a lidar com a vida mas pouco com seu fim.” E será que um dia acostumaremos? Por mais que saibamos que é a única certeza que temos, nunca será normal. Você nos fez pensar!

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  2. É certo que “nunca será normal”. Sim, concordo com você, mas devemos tentar ver a morte de uma maneira mais leve, e lidar sabiamente com nossa finitude. Ela é inescapável e faz-nos lembrar, todos os dias, que este mundo é transitório.
    Quando enfatizei neste texto sobre doentes que sofrem com uma doença terminal, quis mostrar que, nem paciente e nem os seus familiares se preparam para o estágio final, quando deveriam fazê-lo. Que melhor seria que não prolongassem suas vidas se submetendo a ficarem conectados a um respirador artificial ou recebendo desfibrilações para terem uma mísera sobrevida.
    Reflita comigo, pacientes terminais que não recebem tais intervenções têm um final de vida, quem sabe, em sua casa, com os seus, bem melhor dos que os que ficam à mercê de experiências médicas.

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