Cuidadores

terceira idade

“Cuidar de uma pessoa idosa e debilitada em nossa era altamente medicamentada é uma desgastante combinação de esforços tutelares e de recursos tecnológicos”.

 Diante da fala citada acima, pensemos como os fardos de um cuidador aumentaram consideravelmente em relação ha um século atrás. São remédios que precisam ser monitorados, reabastecidos, organizados; visitas constantes ao médico e, consequentemente, exames laboratoriais e de imagem vêm no pacote das obrigações diárias de um cuidador. Muitas vezes o cuidador se torna literalmente um assistente, motorista, cozinheiro, empregado, atendente, sem contar no desgaste ocasionado por cancelamentos ou mudanças de horários de consultas médicas que atrapalham todo o desempenho do cuidador. Simples viagens do dia a dia, ou pequenas folgas e visitas a familiares são impossíveis para um cuidador se ele não contratar alguém que fique com a pessoa da qual ele cuida.

E o que faz com que a vida valha a pena quando se está velho, fragilizado e incapaz de cuidar de si mesmo, se não fossem esses anjos cuidadores?

Depois que alguém perde sua independência física, principalmente se é um idoso, torna-se quase impossível uma vida digna sem a presença constante de um cuidador. Quão difícil deve ser a guerra para alimentar um idoso de cem anos, um diabético que come biscoitos e pudins clandestinamente causando uma elevação em sua glicose, uma senhora de Parkinson, que insiste em ignorar sua dieta com restrição de alimentos pastosos…

Fato é que, a maioria das pessoas não está preparada para a dependência e não é a morte que as assusta e sim a perda da audição, da memória, dos amigos, da vida saudável que levou. Com sorte e constantes cuidados, incluindo os anjos cuidadores, é que as pessoas conseguem viver bem a velhice.

Segundo o psicólogo Abraham Maskow as pessoas têm uma hierarquia de necessidades retratada como uma pirâmide. Na base estão suas necessidades básicas, essenciais para sua sobrevivência, como: comida, água e ar e, para sua segurança, leis, ordem e estabilidade. Acima está a necessidade de serem amadas e fazer algo maior, alcançar metas pessoais, serem reconhecidas e recompensadas por suas realizações. O fato é que a segurança e a sobrevivência permanecem como suas metas primárias e fundamentais na vida e não se tornam menos importantes quando suas capacidades se tornam limitadas!

Quando as pessoas chegam à segunda metade da vida adulta, é fato que suas prioridades mudam. A tendência da maioria é reduzir o tempo e esforço que dedicam às realizações pessoais. Pessoas mais jovens preferem conhecer pessoas novas e estar no meio delas. As mais velhas preferem o oposto.

Estudos mostram que, conforme envelhecemos, passamos a interagir com um número menor de pessoas e nos concentramos mais em passar o tempo com nossa família e amigos próximos. Enfocamos o “ser” em vez do “ter”, e o presente mais do que o futuro. Entender essa mudança é fundamental para compreender a velhice, afinal essas mudanças não acontecem por acaso. Algumas teorias argumentam que elas refletem a sabedoria adquirida com a longa experiência de vida. E há as que argumentam que a mudança no comportamento é imposta aos idosos e não reflete o que no fundo eles querem. Será que o mundo os inibe pelo simples fato de serem velhos e que, em vez de lutar, preferem se adaptar ou desistir?

Não é o que penso ou quero para mim, quando eu estiver bem velhinha! Vejo idosos, longe de serem infelizes, exibindo emoções positivas conforme envelhecem. Mesmo passando por privações e aflições deixam essas emoções positivas e negativas se misturarem e se dissolverem, e continuam a viver um estado emocional satisfatório. É assim que quero viver, e “Viver é uma espécie de habilidade”.

O tempo vai bater à porta de todos nós e haverá uma fase da vida em que não poderemos mais nos virar sozinhos. Que tenhamos a felicidade de encontrar cuidadores com as qualidades dos que mencionei no início do artigo, que nos ajudarão a ver que a vida continua valendo a pena mesmo diante das debilidades e fragilidades que a velhice insiste em trazer na bagagem. Cuidadores que nos mostrarão que existe felicidade na velhice e que serão essenciais para ajudar-nos a não perder o entusiasmo e a leveza da vida.

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