Flexibilização do conceito de casamento

xicaras

Autores sustentam que ”uma união completa entre um homem e uma mulher é boa em si mesma, mas que é seu elo com o bem estar das crianças que torna um casamento um bem público que deve ser reconhecido e estimulado pelo Estado. É o que chamam de visão conjugal do casamento, em contrapartida à visão revisionista, que chama de casamento uma união emocional entre quaisquer adultos.” (What is Mariage, de Sherif Girgis, Ryan Anderson e Robert George)

 Redefinir ou flexibilizar um conceito tradicional de casamento tendo em vista apenas a “união emocional entre quaisquer adultos”, conforme ‘visão revisionista’, é deixar para trás todas as culturas que estruturaram a instituição que é o casamento conjugal, instituição essa que acabou moldando as nossas tradições.

Por outro lado, é do conhecimento de todos que novos modelos de família constituem a realidade atual e que a família pode, hoje, o que não podia no passado. Vale lembrar que em 05 de maio de 2011 o Supremo Tribunal Federal, por unanimidade de votos, decidiu: “a união estável homossexual se equipara para todos os efeitos à união estável heterossexual”. Inclusive, não dizemos mais ‘união estável homossexual’ e sim, apenas, união estável.

Reconhecida está, portanto, a união homoafetiva como um núcleo familiar como qualquer outro; casais homossexuais podem adotar filhos, desde que atendam os mesmos requisitos impostos aos casais formados por indivíduos de gêneros distintos: o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) exige, para adoção, união estável ou casamento. Em outras palavras, tem de ser companheiro ou casado.

Voltando à definição acima e com o olhar sobre todos os relacionamentos afetivos que visam formar uma família, o casamento não pode, até para o bem dos filhos, significar apenas uma união centrada na emoção. E sim uma união voltada para toda a família, sua estabilidade e a de seus filhos. Sabemos o quanto a estabilidade familiar é positiva para eles. Não é à toa que o casamento “tradicional” cria dificuldades para o divórcio, uma vez que o mesmo subtrai a estabilidade familiar e retira as crianças do convívio diário com seus pais biológicos. O ideal seria que as pessoas casassem e permanecessem casadas – isso se o casamento não fosse tão frágil, custoso e de difícil manutenção.

Sob o ponto de vista Cristão, ‘flexibilizar o conceito de casamento’ focando apenas no seu aspecto emocional, pode trazer consequências que ainda não se consegue avaliar. Nesse contexto, para a Igreja Católica, por exemplo, “a família é o santuário da vida, o lugar em que a vida é gerada e cuidada”. Para ela, “o casamento é indissolúvel”. Desfazer um casamento e/ou família não pode ser uma decisão tão simples e corriqueira como tem sido nos dias de hoje. O vácuo deixado pela ruptura de um casamento faz com que o Estado seja convocado a se intrometer cada vez mais na vida íntima dos casais, tentando selar disputas como heranças, visitas, guardas, pais biológicos e adotivos, pais e mães gays, relacionamentos com múltiplos parceiros, etc.

Que nestes tempos de diversidades, as pessoas pautem pelas diferentes escolhas e suas consequências. Que sejam livres para amar, mas que entendam que dependendo das escolhas que fizerem e caso sejam seguidores da Igreja Católica, já não serão consideradas por esta, iguais aos casais “tradicionais”. Os adeptos do “poliamor”, por exemplo, entrariam na Igreja em grupo? Adotariam um filho em conjunto?

Para muitos, o casamento “tradicional” ainda é tido como o ideal a ser seguido, e digo o quanto é polêmico o tema que tentei, em brevíssimas palavras, descrever, sem levar em consideração os inúmeros aspectos legais que definem o casamento – o que não impede que os leitores reflitam sobre os vários assuntos suscitados.

Enfim, que o “velho e bom casamento” seja eterno para os que o escolheram, e que todos encontrem no amor a sua forma de amar.

Esteira, vento e ela

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Vento que sopra, brisa que afaga, chuva fina que cai. E ela, insistentemente em uma esteira, busca moldar suas curvas, seus pensamentos e fortalecer o seu coração enquanto o marcador acelera. Seus pequenos pés correm e correm incansáveis numa louca aflição para acompanhar o marcador.

As canções envolventes de Simon and Garfunkel, um pouco lentas para o momento, parecendo não querer ver o seu cansaço, fazem parte deste cenário saudável.

É assim que ela encerra suas tardes transpiradas e inspiradas, do 8ª andar de seu apartamento, onde aprecia toda a movimentação da rua onde mora. Encanta-se com o corre-corre dos que voltam do trabalho com passos tão apressados quanto os dela, mas que não têm o prazer nem a graça sentidos por ela, na amiga e companheira esteira.

Amor e desenho humano

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“O amor de Deus excede a todo desenho humano”. Li esta frase em um livro do grande teólogo inglês James Alison. O autor, em uma de suas passagens, discorre sobre a inclusão e a exclusão das “pessoas que atualmente chamamos de gay” e foi muito feliz ao colocar que o amor de Deus excede a todo desenho humano. Soou forte, profundo e, ao mesmo tempo, tão leve e muito me impressionou. Fiquei refletindo… Se soubéssemos absorver um pouco das formas de amar, o mundo seria outro.

Confesso que não é fácil falar ou debater sobre ‘homossexualidade’ se não sairmos do campo de um ‘nós versus eles’ e entrarmos em outro, o do ‘nós versus nós’, reconhecendo que todos somos iguais, que todos merecemos o respeito, que todos merecemos amar e que ninguém é melhor que ninguém. Nem aos olhos do mundo, muito menos aos olhos de Deus.

Quando a questão é homossexualidade, reina um clima polêmico em muitos lugares: escolas, lares, ambientes de trabalho, Igrejas etc. Quantos lares se dissolvem ao descobrir e discordar que um de seus filhos é homossexual. De início, se essas famílias com filhos gays mergulhassem no trabalho, mesmo que lento ou doloroso, de se verem livres de ressentimentos, homofobias e preconceitos, descobririam que as dores, e não só as alegrias, nos ensinam coisas excepcionais!  Descobririam, ainda, que toda família é abençoada por Deus e em qualquer situação existencial, gay ou não, somos todos amados por Ele e “esse amor excede a todo desenho humano”. Filho nenhum, ou qualquer pessoa que seja, deve ser colocada em extremo sentimento de rejeição pela sua condição de homossexual. Imaginem um filho ou filha assombrados pela rejeição familiar por sua condição de gay, perdendo tudo que poderia lhe dar uma “sensação de pertencimento” – ou seja, perdendo sua própria família ao ser excluído dela!

Óbvio que não é fácil nem para os pais e nem para o filho ou filha ‘gay’ continuar vivendo num campo minado de meias verdades, de silêncio medroso. E, sim, saudável é para todos, aprender a viver esses assuntos de maneira adulta, à luz da verdade, honesta e serenamente. Ninguém deve habitar o espaço do ódio ou do preconceito a ponto de rejeitar, excluir ou ignorar um membro de sua família ou qualquer pessoa por ser um homossexual. Para tanto, é essencial focar no que é estritamente humano, ou seja: amar sem condições. Afinal, somos todos iguais: negros, brancos, pardos, homens, mulheres, homossexuais, heterossexuais, feios ou bonitos.

Que as famílias com filhos/filhas ‘gays’ não parem no ressentimento e jamais sintam que tal condição representa o fim, mas um novo começo com mais união, diálogo, compreensão, inclusão e com um olhar para a vida sem preconceitos.